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sábado, 22 de julho de 2017

Substratos



Corpo que nos encapa e porta
Encobre camadas, muitas,
Mescladas, sobrepostas...
Intuídas.
Nem sabidas.

Sob matéria, mar de mistérios.
Uma água...
Vagas de puro enigma.
Elementos de teores voláteis, intangíveis...
Em intensidades diversas.

Habitam-nos entes invisíveis
A somar-se, distintos,
Revezando-se em expressão ?
Colaboram, digladiam...
Conversam ou não ?

O que abastece carne
Supre alma,
Sustenta coração ?


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Porcos-espinhos



Invariavelmente o somos.
Seres de arestas, em ações ponte-agudas,
Carecendo envolvimento
E, reativos, desatentos de importâncias,
Atores de estranhamentos,
Produtores de distâncias.

A mesma fonte de calor
Convida e espanta, atrai e aparta...
Em tramas, danças de quereres
De orgulhos muitos, rasos,
Poucos profundos saberes.

Corpos macios, mentes pouco maleáveis,
Facilmente afrontamos, combatemos
Ou fugimos, nos furtamos,
Pretendendo nos poupar.  
                                    
Em defesa, ao ataque... ou debandada:
De qualquer forma, afastamento.

Qual o bom investimento ?

Amar há de ferir, em algum momento.
Ser que poupa envolvimento
Perde, da soma, a melhor parte.

Prejuízo há pior ?


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Flechada



Nada, ninguém me tirará
O que me destes
Por palavras, olhares, sorrisos,
Sons, silêncios, moveres...
De amar.

Nada, ninguém me tirará
O que me tenha atingido o peito
Profundamente,
Penetrado o coração
Tal flecha de ponta afiada,
Contaminada...
De afeto.

Que o tempo voe,
Que as coisas evaporem,
Que os corpos passem,
Sigam viagem, seus destinos...

Nada, ninguém me tirará
Os tesouros impalpáveis, a fartura, a ventura
De bem-querer vivido.

O que meu coração tenha sentido,
Do que meus sentidos tenham provado,
Do que esta mente tenha se nutrido,
Do que este ser tenha se enlevado...
Por um momento que tenha sido
Intenso,
Ficará.

Uma vez flechada, atingida,
Levo você para a vida.



quarta-feira, 19 de julho de 2017

Desafio de Gente Grande



Desafio é despertar a cada manhã.
Não apenas descerrar pálpebras,
Desocupar cama...
Mas denegar, abandonar o sono
De não estar em ser,
De não ser onde se está...
Seguindo autômato,
Passageiro de afazeres,
Realizador de tarefas,
Cumpridor de deveres...
Sem tento
De plantar ato ao peito.

Desafio é por-se pleno,
Completo em feito.
Não ser parte de pessoa,
Parcela de sujeito,
Divisão.

Desafio é, mais que pavio,
Mais que viver vela,
Ser luz.
A-cor-dar para si,
Avivar redor.
Mover-se sendo chama...
Que faz olhar brilhar.



Entre tuas mãos e teus medos



Quantas camadas entre tuas mãos
E teus medos,
Entre teus discursos e segredos,
No hiato entre o que sente
E o que quer crer ?!

Por que campos caminhará tua mente
Antes que percebas por que cavas ?
Sob assoalho de mistério
Moram sementes de evidências.

Afasta a névoa de vaidades.
Olha tua humanidade
E beija as dúvidas.
Com calma, paciência,
Reduz dor.

Toma-as como tapete natural.
Pisa e passa.
Deixa-as sós.

Respostas aparecerão desses silêncios.
E como pó se dissiparão as peças vãs,
A motivar que vejas o que vale,
Clara-mente...
Dentro de ti.


terça-feira, 18 de julho de 2017

Pacificador combatente



Algumas lembranças invadem e avassalam.
Desprezam porta, passam sala, assomam ao quarto,
Território privado.

Abocanham coração,
Dentam-no de novo.
Dá-se dor.

É capital correr,
Espantar perigo,
Buscar abrigo,
Voltar urgente.
Retomar lar,
Presente.

Ser supera impacto,
Anda.
Mas memória o acompanha.

Eterno convalescente de e-ventos,
É, sempre será, combatente de si
...e seu pacificador.



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Descobrimentos



Num volteio,
Próprio perfume ao olfato veio.
Sobre a face avistei cabelos
Com outros olhos, de farejar.
Um perceber... ao aspirar.

Num volteio,
Consciência, despertada, acendeu
A explorar mais a matéria,
Capa, campo que me cobre.

De cabelo fui à pele
... e seu cheiro natural.
E de fragrância à textura.
Passeio pela epiderme
Que ele amava amanhar,
Afagando à palma plena.

Respirei leda ternura,
Maciez... de exclamações.

E de tato fui visão.
Vi, então, que território ainda virgem,
Extenso a percorrer, perscrutar.
Reparar... e des-cobrir.

Ahhh, muito mistério !...
Sob teto de tantos anos,
Estratos múltiplos, mutáveis, volantes.

Um universo em frenesi mora aqui.
Quanta vida a desvelar !